CECI N’EST PAS BOLSONARO?
Roger Monteiro
Na recente convenção do Partido Liberal, que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência da República, seu pai, Jair Bolsonaro, subiu ao palanque. Não fisicamente, claro.
Preso e impedido de realizar manifestações públicas, o ex-presidente apareceu em um vídeo produzido por inteligência artificial. A grande figura na tela tinha o rosto de Bolsonaro, a voz de Bolsonaro, falava como Bolsonaro e era apresentado ao público como Bolsonaro. Ao mesmo tempo, desde os primeiros segundos, o vídeo fazia questão de se autodenunciar como o produto de uma plataforma de inteligência artificial.
Jair Bolsonaro não está ali.
Ou está?
A pergunta talvez interesse aqui menos pelo seu aspecto jurídico (embora ele seja inevitável) do que pela sua natureza filosófica. Bolsonaro está preso, condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado, e cumpre uma pena que impõe restrições às suas manifestações políticas. Se tivesse gravado um vídeo para a campanha do filho, a questão seria relativamente simples. Mas ele não gravou um vídeo. Pelo menos não no entendimento que tínhamos até agora e que nos lembra d'A Traição das Imagens, de Magritte, e de seu enigmático não-cachimbo: Ceci n'est pas une pipe.
Claro que não. O desenho de Magritte é a imagem de um cachimbo. Ou ainda a imagem da imagem de um cachimbo, para todos nós que só vimos o célebre cartaz reproduzido nos livros de história da arte. Fosse um cachimbo, poderíamos enchê-lo de tabaco, acendê-lo ou segurá-lo entre os dedos. Mas não podemos. Magritte expõe uma obviedade que nos acostumamos a ignorar. A representação da coisa não é a coisa.
Poderíamos colocar sob o vídeo da convenção uma legenda semelhante. Ceci n'est pas Bolsonaro. E estaríamos dizendo a verdade.
Aqueles pixels não são Jair Bolsonaro. Aquela voz não saiu de suas cordas vocais. Aquelas expressões não foram produzidas pelos músculos de seu rosto. Há um homem chamado Jair Bolsonaro em outro lugar, fisicamente separado daquela imagem que ocupa a tela.
Mas há uma diferença fundamental: o cachimbo de Magritte não fala.
Enquanto o cachimbo permanece pura representação, o Bolsonaro sintético age. Ele olha para o público, pronuncia palavras, defende posições, sustenta ideias, inflama um evento político. Quando diz eu, ninguém na plateia imagina que o pronome se refira ao software que gerou a imagem, ao computador que processou o vídeo ou ao profissional que escreveu o prompt. O eu é Jair Bolsonaro.
E aqui Magritte começa a ser insuficiente. Posso olhar para o cachimbo pintado e aceitar tranquilamente o que ele representa. A relação entre a imagem e seu referente permanece estável. Existe o objeto e existe sua representação. Com um avatar produzido por inteligência artificial, essa relação é menos confortável.
Se Bolsonaro escreveu aquela mensagem, aprovou seu conteúdo e autorizou sua reprodução através de um avatar (jamais saberemos), entendo aquilo como uma manifestação sua. É a tecnologia ocupando o lugar de um meio. Poderia ser uma carta, um texto lido por um porta-voz ou uma declaração publicada por sua assessoria. Mudam os mecanismos, permanece alguma forma de autoria.
Mas suponhamos que Bolsonaro jamais tenha visto o vídeo. Suponhamos que alguém da campanha de Flávio tenha escrito o texto, alimentado um sistema com imagens e gravações anteriores e produzido aquele Bolsonaro digital. Nenhuma palavra teria sido de fato pronunciada pelo homem. Nenhum gesto teria sido feito por ele. Nenhuma frase precisaria sequer corresponder ao que ele pensa.
Ainda assim, diante da tela, reconhecemos e aceitamos aquele Bolsonaro.
Durante muito tempo, falsificar a presença de alguém exigia esconder a falsificação. Uma fotografia adulterada precisava parecer verdadeira. Uma voz imitada precisava convencer o ouvinte. Um documento falso dependia da possibilidade de ser confundido com o autêntico. Mas o vídeo da convenção faz algo curioso. Ele declara sua própria artificialidade. Ninguém precisa acreditar que Jair Bolsonaro esteve diante de uma câmera porque somos informados de que não esteve. Sabemos que aquela voz é artificial. Sabemos que aquele rosto foi sintetizado. Mas a força da mensagem não se perde. Se todos desejam acreditar, todos irão acreditar, apoiando-se uns nos outros para sustentar o culto de personalidade.
E aqui Magritte dá lugar a Baudrillard.
Baudrillard escreveu sobre um mundo no qual os signos deixam progressivamente de depender da realidade que deveriam representar. A cópia já não precisa de um original presente. O simulacro adquire autonomia. E, em determinado momento, a velha pergunta sobre o que é verdadeiro e o que é falso começa a perder sua utilidade. O avatar de Bolsonaro existe, logo ele é real.
Existe Jair Bolsonaro, o indivíduo. Um corpo, uma biografia, uma consciência, uma voz produzida biologicamente, um sujeito submetido inclusive aos limites geográficos de uma prisão. E existe Bolsonaro, o mito.
O rosto. A voz. A cadência. O vocabulário parco. Os gestos. Os bordões. A iconografia. A memória de milhares de horas de televisão, discursos, entrevistas, lives, fotografias e vídeos acumulados durante décadas estão ali, reconstruindo um referente. Esse Bolsonaro pode ser modelado. Pode ser reproduzido. Pode falar.
A prisão consegue conter o primeiro. Mas o que fazer com o segundo?
Há algo quase irônico nessa situação. Durante séculos, prender alguém significou também limitar sua presença. O corpo estava aqui e, portanto, não estava lá. A cela estabelecia uma fronteira física razoavelmente objetiva para a atuação de um indivíduo. A inteligência artificial introduz uma estranha rachadura nessa lógica: o corpo pode permanecer encarcerado enquanto sua imagem sobe ao palanque.
E essa imagem já não precisa repetir alguma coisa que o corpo tenha feito anteriormente. Uma fotografia de Bolsonaro congela Bolsonaro em algum instante. Uma gravação de sua voz preserva palavras que ele pronunciou. Um vídeo registra gestos que efetivamente realizou. Mas o avatar não precisa de nada disso no presente. Pode produzir novas falas, novos gestos, novas expressões. Pode reagir a acontecimentos posteriores à prisão. Pode apoiar candidatos. Pode comentar fatos que Jair Bolsonaro jamais comentou. Em tese, pode continuar fazendo isso amanhã, daqui a dez anos ou depois da morte do próprio Bolsonaro. A inteligência artificial potencializa uma presença outrora limitada à existência física. O signo Bolsonaro adquiriu condições técnicas para sobreviver ao sujeito Bolsonaro. E pode se tornar mais eficiente do que ele.
Um Bolsonaro sintético não se cansa. Não hesita. Não esquece o texto. Não envelhece se não quisermos que envelheça. Pode ter permanentemente a aparência, a voz e a energia do momento em que sua imagem pública atingiu maior potência, alimentado por décadas de material audiovisual até produzir uma versão estatisticamente perfeita de seus gestos, da sua prosódia, do seu vocabulário e das suas reações. Pode, em algum momento, por que não, parecer mais Bolsonaro do que o próprio Bolsonaro. Chegamos ao hiper-real de Baudrillard.
O que me chama atenção no episódio da convenção é justamente o fato de que a identificação explícita da inteligência artificial não destrói essa presença de Bolsonaro. O vídeo pode dizer esta imagem é artificial e, segundos depois, a plateia reage ao que Bolsonaro disse. Do mesmo modo que as pessoas escolhem acreditar na última fake news da semana, pelo puro viés de confirmação, elas tomam o avatar pelo sujeito.
Magritte precisou escrever Ceci n'est pas une pipe para nos lembrar de que estávamos olhando para uma representação. Hoje podemos escrever Ceci n'est pas Bolsonaro na testa desse Bolsonaro sintético unicamente para descobrirmos que o aviso já não tem importância.
O homem não está presente, mas o signo sim.
E em tempos de inteligência artificial, isso basta.
Roger Monteiro (@graphichaos) é graduado em Letras, pós-graduado em Filosofia, Artes Visuais e História da Arte. É designer gráfico. Mantém uma carreira consistente como artista visual e não esteve presente na convenção do PL. Nem o seu avatar.
A lembrança inspirada de Baudrillard foi uma colaboração de André Rousselet Sardá (@andre_rousselet_sarda),, de cuja paciência o autor abusou durante a escrita deste artigo.